quarta-feira, 27 de julho de 2016

Moto: Um Mundo Fascinante

A minha relação com o mundo automotor é de longa data, já no ventre, minha mãe conta que quando dentro do carro eu me agitava toda, provocava enjoos daqueles.

Toda noite até completar 3 anos chorava incessantemente, não dormia e não deixava ninguém dormir, então não era raro meu avô chamar um táxi e dar umas voltinhas até eu dormir.

Sempre adorei ficar vendo meu pai lavar o carro, fazer aquele trabalhinho de fim de semana, ir abastecer e coisas do tipo.

O primeiro carro zero que me lembro foi um Fiat 147, não esqueço a placa dele até hoje, meu pai era metalúrgico e trabalhava a noite, então o carro era nosso a noite toda, dentro daquela garagem, com aquele perfume da carro novo, passei a noite dentro do Fiat.

Bicicleta só fui ter a minha quando adulta, meu irmão sempre teve a dele e eu ficava com os restos. Meu sonho de consumo era uma Ceci, aquela cestinha me encantava!!!

Minha amiga ganhou uma Ceci dourada, coisa mais linda e eu fiquei com a bicicletinha velha dela!!!

Foram muitos tombos e diversão naquela magrela pequena e já detonada!!!

Quando meu irmão foi aprender a dirigir carro, lá íamos nós, meu pai, meu avô e eu no mesmo Fiat, rodar pelas ruas desertas da Cidade Universitária.

Enquanto meu pai, sem a menor paciência, explicava as coisas pro meu irão, eu ia dirigindo na minha imaginação, passava as marchas daquele câmbio duro do 147, soltava a embreagem devagar, sem dar tranco, fazia a prova de morro e ficava feliz da vida de estar no banco de trás.

Aos 17 anos meu irmão ganhou sua primeira moto, uma RX 125, era um show de moto, aquele barulho do "dois tempos" enchia os ouvidos.

Enquanto isso eu tive patins, amava aquela sensação de liberdade e vento na cara, mas não tinha o fascínio do motor... 

Desde os 10 anos eu garupava, acompanhava a movimentação dos rapazes na porta de casa, era como o mascote deles, ouvia as lorotas, sabia dos namoricos de todos, mas do portão para dentro.

Enfim chegou a minha vez de aprender a dirigir, lá vamos nós, meu pai e meu avô, para a mesma não tão deserta Cidade Universitária, aprender, mas eu já sabia tudo na teoria!!!!

Foi uma questão de pegar a prática e já pilotava, sem o menor medo, para o desespero do meu pai!!!!

Minha mãe criou coragem e teve seu Fusquinha amarelo, que nos levava insegura pra cima e pra baixo, mas ela não manobrava. Era bem divertido, eu era a copiloto, mas não podia dirigir.

Aos meus 17 anos também ganhei minha moto, porque na minha casa podia dirigir moto sem habilitação, mas não carro!!! Era uma Vespa branca, batizada de Maria Clara.

Clarinha me acompanhou por bons anos, me levava para a escola, mas quase nunca me trazia de volta. Era duro fazer a menina pegar no pedal na volta.

Muitas foram as vezes que a deixava na escola e vinha embora a pé ou meu irmão ia me socorrer.

De toda forma, vivi grandes aventuras e histórias maravilhosas com a Clarinha.

Minha amiga de infância Lígia, que tive o prazer de reencontrar há pouco tempo, coisas do Facebook, era minha garupa certeira.

Passávamos as tardes de sábado curtindo a vida no circuito dos bares, onde a moçada se encontrava.

Certa vez teve batida policial no Cidade Lírios, eu apoiada na Clarinha, tipo pin up mulambeira e o policial me aborda, na maior cara de pau soltei "não é minha, só estou pagando de gatinha" e dei linha, só observando.

Naquela época éramos mais safos, fiquei por horas sentada lá com a Lígia esperando a polícia ir embora, cheguei em casa e foi aquela bronca. Meu argumento para o pai: "ou chego tarde ou chego a pé".

Quando comecei a namorar, a moto fazia parte da relação, lógico, já não tinha mais a Clarinha, mas ele tinha a dele.

A minha sonhada bicicleta ganhei de presente do namorado, mas não era a Ceci, enfim, mas ainda assim tive uma bicicleta para chamar de minha!!!!

Casei com o namorado, a moto sempre fazendo parte da nossa vida.

Os amigos também tinham moto e tínhamos um grupo pequeno, mas bacana, que saia de moto por aí.

Certa vez fomos em 3 casais para Santos de moto, um fim de semana que começou quente e ficou gelado no meio do caminho.

Tínhamos uma DT, aquele "2 tempos" jogando óleo. Não se tinha mala de viagem, equipamento de proteção, era capacete, jeans, jaqueta, tênis e mochila nas costas.

O frio me obrigou a usar a mesma roupa o FDS inteiro, na volta a roupa era puro óleo, mas nos divertimos muito.

Outras tantas viagens fizemos de moto, com sol, com chuva, com muita chuva, com frio e assim fomos desbravando o mundo.

Aqueles sonhos de consumo de ter a moto tal, acabaram se tornando realidade, hoje é possível ter qualquer moto, quem tem crédito tem tudo o que quiser.

Os tempos mudaram, os amigos não viajam mais de moto conosco, mas continuamos motociclistas e com novos amigos motociclistas.

Fazemos longas viagens, cruzamos fronteiras e conhecemos lugares maravilhosos.

Aos 40 anos decidi que ia fazer minha habilitação de moto, é isso aí mesmo, pilotava na adolescência, mas transgredi e não tirei carta!!!!

Não foi fácil passar pela burocracia toda, mas consegui e como boa sonhadora, comprei minha moto antes da habilitação sair.

Só que sonhei grande, comprei uma moto grande, linda e  pesada!!!!

Encarei com determinação minha Bonnie, o peso dela com a minha falta de habilidade me derrubam de vez em quando, nada grave, sempre em manobras de baixa, mas o chão é o limite!!! 

Invertendo a ordem natural, comprei uma Fazer 150, levinha, prática para o dia-a-dia, uma relação de amor com minha Fáfa.

Hoje, dia do motociclista, mais um dia comum para quem tem a moto como parte da sua vida, vale a pena refletir sobre as experiências vividas tendo a moto como companheira. Vale a pena sonhar com novas estradas, novos roteiros e planejar novas experiências.

Planejamos ir para o Atacama, mas antes disso, há muita estrada pra rodar por aqui, muitas experiência por viver, muito vento na cara pra sentir...

Motociclista é uma criatura estranha mesmo, concordo com quem disse isso, afinal de contas, só eles entendem o prazer dessas dificuldades todas em estar sobre a moto.

São as mudanças climáticas, a exposição ao sol, calor, chuva, frio, o cansaço de longas horas de viagem, o sono de quem está na garupa, o isolamento do capacete, o pouco espaço para bagagens, o cabelo desarvorado ao tirar o capacete...

O motociclista é um espírito livre, desapegado de bagagens, secador de cabelo, travesseiro...

O motociclista é uma pessoa feliz e isso basta!!!

Não importa a cilindrada da sua moto, não importa se é nova, não importa nada disso, o importante é poder ligar o motor e ser livre.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quanto Vale?

A tragédia do rompimento da barragem do Fundão, na cidade de Mariana/MG aconteceu em 05/11/2015, dias após nosso retorno a uma viagem deliciosa até Inhotim.

Ficamos tentados a visitar Ouro Preto e Mariana na ocasião, mas o tempo foi curto e ficamos de retornar em um futuro próximo.

Retornamos em 05/06/2016, fomos então conhecer a belíssima Ouro Preto, cidade de conjunto arquitetônico maravilho e patrimônio da humanidade, merecidamente.

Por ironia da situação, a Vale, gigante das mineradoras, é a patrocinadora do projeto do Trem da Vale, ou seja, mantém um trem que faz o percurso Ouro Preto/Mariana e vice e versa, levando turistas para desfrutarem as maravilhas das duas cidades.

O passeio é muito agradável, o trecho da ferrovia nos brinda com paisagens magníficas, que para os amantes de história é uma aula a céu aberto.

Em Mariana fomos abatidos pela notícia de que nosso bairro sofrera muito com a passagem de um tornado ou uma micro explosão, já que os especialistas não se acertaram sobre o fenômeno.

Com isso nosso dia em Mariana foi afetado e não desfrutamos plenamente de suas maravilhas, mas mesmo assim indagamos sobre a tragédia e sobre a possibilidade de visitar a região mais afetada.

O distrito de Bento Rodrigues fica distante da cidade de Mariana e mesmo dos pontos mais altos a cidade, não foi possível avistar o rastro de destruição deixado pelo rompimento, mas foi possível sentir no ar a tristeza de seus moradores.

Lamentei não poder ver de perto o rastro de destruição, não porque goste de destruição, mas porque o impacto da imagem vista in locu é incomparável.

Fui informada que para visitar a área afetada é preciso agendar com a Defesa Civil, já que o roteiro tornou-se turístico!!!

Impossível encaixar tal agendamento no nosso roteiro de viagem!!! De toda forma, não saiu da minha cabeça essa tragédia e ainda tenho muita curiosidade de ver de perto seu rastro.

Para minha surpresa, na edição de julho da revista Piauí, a qual sou assinante, trouxe duas matérias muito boas sobre o assunto e confesso que chorei durante grande parte da sua leitura, ao ler relatos dos personagens da vida real.

* Foto: Cristiano Mascaro e Pedro Mascaro, edição 118 Revista Piauí

Chorei de tristeza pelo desespero daquelas pessoas, chorei de tristeza pela falta de responsabilidade da proprietária da barragem por não prever que um acidente dessa magnitude pudesse acontecer, chorei por saber que não existia e não existe nenhum plano de contingência para o rompimento de barragens de rejeitos, chorei pela falta de atitude dos dirigentes da Samarco, chorei pela tragédia ambiental no Rio Doce, simplesmente chorei de tristeza por ser brasileira!!!

Impensável saber que os exploradores econômicos da extração mineral não se preocupam de fato com o meio ambiente e muito menos com o impacto de suas atividades na população do entorno.

Na mesma viagem tivemos a oportunidade de ir conhecer Belo Vale, uma cidade que o nome a define perfeitamente, mas que  me causou um pavor tremendo ao ver os impactos da extração de minérios.



As montanhas verdes são consumidas com escavações, tornando-se gigantescos buracos cinza, marrom, cor de sujeira, sem vida, lembrando aqueles filmes de guerra, com grandes áreas devastadas.


 
Belo Vale ainda está segura, mas a pressão das mineradoras para explorar as suas montanhas é gigantesca e sabemos que as autoridades políticas não se importam com o bem estar da população, mas apenas com o jogo político corrupto do ganha-ganha.

Lamentei por Belo Vale, lamentei por aquela paisagem que nada deve às paisagens européias, lamentei por saber que a força do homem será maior que a da natureza e que corremos o sério risco daquele lugar se transformar completamente.

As classes dominantes brasileiras têm muito a aprender e a sofrer, não necessariamente nessa mesma ordem, pelas ações e comportamentos que praticam

O eleitor brasileiro igualmente tem muito a aprender e a sofrer pelas escolhas que faz.

O planeta Terra sobreviverá sem o ser humano, mas o ser humano não sobreviverá sem o planeta Terra, mas pensar nisso pra quê?! Vamos aproveitar ao máximo, no futuro não estaremos aqui para vivenciar a degradação?!

Enquanto isso, as áreas e as pessoas afetadas pela tragédia esperam as tão prometidas providências para a restauração da vida, mas enquanto isso, as autoridades e as classes dominantes vivem sua vidinha frugal do jogo do poder...